PFAS: o que são e de que forma contaminam os alimentos

Mas afinal o que são PFAS?

As substâncias perfluoroalquiladas e polifluoroalquiladas, mais conhecidas como PFAS, são uma vasta família de mais de 4.000 substâncias químicas que não ocorrem naturalmente na natureza.

Trata-se de compostos sintéticos persistentes, ou seja, produzidos industrialmente e que não se degradam com facilidade. Por isso, são designados de “químicos eternos” (forever chemicals). Isto acontece porque apresentam ligações do tipo carbono-flúor, uma das ligações mais fortes que existe na natureza.

Existem PFAS de cadeia longa e de cadeia curta e todos são bioacumulativos, ou seja, são absorvidos pelo organismo e não são excretados, pelo que se vão tornando cada vez mais concentrados à medida que percorrem a cadeia alimentar.

Ao contrário de outros poluentes orgânicos persistentes (POPs) que se acumulam nos tecidos adiposos (como por exemplo, os PCB – sabe mais sobre estes poluentes neste artigo), as PFAS acumulam-se em partes do corpo ricas em proteínas, como por exemplo o sangue, o fígado e os rins.

Onde são utilizadas as PFAS?

Desde 1940 que as PFAS são largamente utilizadas em vários produtos, equipamentos e processos industriais. Essencialmente, por possuírem propriedades físico-químicas muito interessantes tais como a sua durabilidade; capacidade de repelir o óleo e a água e a sua estabilidade térmica e química.

Desde 1950, a sua presença intencional tornou-se comum em embalagens de papel e cartão para contacto com alimentos (por exemplo, embalagens de take away; caixas de pizza; embalagens para pipocas de microondas e caixas de pastelaria). Também são amplamente encontradas em utensílios de cozinha anti-aderentes; têxteis; cosméticos; equipamentos eletrónicos; espumas de combate a incêndios e tintas.

Faz parte do papel do profissional de segurança alimentar, estar preparado para percecionar e avaliar o perigo químico subjacente a este tipo de contaminantes nos materiais de embalagem; em matérias-primas utilizados e nos produtos finais produzidos.

Quais são as fontes de exposição às PFAS?

Devido à sua alta solubilidade em água e porque não se ligam a muitos materiais, as PFAS têm uma grande mobilidade no ambiente. Migram através das correntes marítimas e atmosféricas, percorrendo longas distâncias desde a sua fonte de emissão.

Contaminam as águas subterrâneas e superficiais e passam facilmente pelos tratamentos de águas residuais, chegando à água para consumo humano.

Adicionalmente, acumulam-se no solo e migram para as plantas. Está comprovado que se acumulam nas partes edíveis das frutas e vegetais, como por exemplo em morangos e alfaces.

A limpeza de locais poluídos é tecnicamente difícil e dispendiosa. Para serem destruídas, as PFAS têm que ser incineradas a temperaturas superiores a 1100ºC.

Ao serem utilizadas na composição das embalagens para contacto com alimentos, migram dessas mesmas embalagens para os alimentos.

Outra forma de exposição é via leite, carne e ovos, provenientes de animais que foram alimentados com pastagens, ração e água contaminadas com PFAS.

Outra fonte de exposição muito significativa é o pescado e os frutos do mar, devido à contaminação das águas.

Quais são os riscos da exposição às PFAS?

As PFAS são ubíquas. Já foram detetadas nos pinguins da Antártida, nos ursos polares do Ártico e na chuva do Tibete.

Análises demonstram a sua presença na corrente sanguínea humana e de animais selvagens e inclusivamente, no leite materno, em todo o mundo.

Estudos sugerem a relação entre as PFAS e determinados riscos para a saúde humana e para os animais, nomeadamente:

    • Interferem com os sistema hormonal e por isso são chamados de disruptores endócrinos;

    • Interferem com o sistema reprodutor e com o desenvolvimento do feto;

    • Impactam o sistema imunitário e tem vindo a ser associadas uma menor capacidade de resposta a vacinas em crianças;

    • Promovem o desenvolvimento de certos tipos de cancro.

Muitos dos milhares de PFAS utilizados atualmente não têm estudos toxicológicos associados.

Em 2020, a EFSA estabeleceu um novo limite de segurança para a ingestão semanal tolerável (TWI) relativamente à soma das principais PFAS que se acumulam no corpo (PFOS, PFOA, PFNA e PFHxS) de 4,4 nanogramas por quilograma de peso corporal por semana.

Utilização de PFAS em embalagens para alimentos

Estima-se que 17% dos alimentos se encontram embalados em papel e cartão. Contudo, com o aumento da procura por embalagens mais sustentáveis, com menos plástico, esta percentagem tem tendência a aumentar.

Um estudo de 2020, que analisou papeis de embrulho e embalagens de restaurantes como McDonald’s, KFC, Subway e Dunkin Donuts, demonstrou que mais de 70% revelaram um tratamento intencional com PFAS.

Além disso, as análises revelaram que na Dinamarca, país onde o uso de PFAS nas embalagens para contacto com alimentos está proibido desde Julho de 2020, nenhuma das embalagens de batatas fritas do McDonald’s tinha sido tratado com PFAS.

O que comprova que a limitação da utilização destas substâncias nocivas nas embalagens para alimentos, imposta pela legislação tem efeitos positivos no sentido da proteção dos consumidores e que existem substâncias alternativas para uso em embalagens alimentares.

O reconhecimento do risco associado a estas substâncias persistentes já levou a que grandes empresas assumissem o compromisso de deixar de fabricar tais substâncias até 2025, como é o caso da 3M, uma gigante da indústria química e a McDonald’s, que se comprometeu a deixar de utilizar PFAS em todas as suas embalagens alimentares até 2025.

Legislação vigente sobre PFAS na União Europeia

De entre milhares de PFAS, apenas 4 se encontram regulamentados, por serem consideradas as mais abundantes nos alimentos e nos seres humanos: PFOS (ácido perfluoro-octanossulfónico); PFOA (ácido perfluoro-octanoico); PFNA (ácido perfluorononanoico) e PFHxS (ácido perfluoro-hexanossulfónico).

Encontram-se estabelecidos níveis máximos destas substâncias em diferentes alimentos de origem animal, tais como os ovos, carnes, peixes, mariscos, moluscos, miudezas, conforme tabela extraída do Regulamento (Figura 1). 

Figura 1: Excerto da legislação aplicável: Regulamento (UE) 2023/915. Não dispensa a consulta do documento legal completo.

Na Recomendação (UE) 2022/1431,  a Comissão Europeia (CE) recomenda aos Estados-Membros que controlem durante os anos 2022-2025 a presença de PFAS nos alimentos, especialmente em frutas, legumes, raízes e tubérculos amiláceos, algas marinhas, cereais, frutos secos, oleaginosas, alimentos para lactentes e crianças jovens, alimentos de origem animal, bebidas não alcoólicas, vinho, cerveja e em alimentos para animais.

A CE recomenda ainda que os Estados-Membros (EM), em colaboração com os operadores de empresas do setor alimentar, recolham informações sobre as concentrações de PFAS nos produtos em bruto e nos produtos transformados do mesmo lote, em particular: queijo, soro de leite em pó, gema de ovo, produtos de padaria fina com elevadas quantidades de ovos e produtos à base de carne que contenham fígado.

No que toca aos produtores de embalagens, podem vir a ser obrigados por lei a reduzir gradualmente a utilização de PFAS na próxima década, uma vez que a CE anunciou, no final de Abril de 2023, que está a considerar uma proibição gradual da utilização destas substâncias nocivas.

O Decreto-Lei nº 69/2023, introduziu em Portugal a obrigatoriedade de monitorizar os parâmetros “Total de PFAS” e “Soma de PFAS” na água para consumo humano, a partir de 12 de janeiro de 2026.

Em 2024, a Comunicação da Comissão C 2024/4910, estabeleceu limites para estes parâmetros, sendo 0,5 ug/l para “Total de PFAS” e  0,10 ug/l para “Soma de PFAS”. 

Verifica-se um número crescente de casos de concentrações elevadas de PFAS na água doce – incluindo na água potável – em toda a UE. Por conseguinte, a CE orienta os EM a acelerar a monitorização das PFAS e a conceberem medidas que permitam cumprir os limites estabelecidos.

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